Mulheres

Mulheres

Se no último post falei de homens, agora falo de mulheres.

Ah, como é bom ser mulher. Tenho conhecido mulheres incríveis nesta viagem. Mais de 80% das pessoas que mais me marcaram até agora nesta jornada, foram mulheres.

Neste momento estou em Caraíva. A Caraíva é mulher. É energia femenina a transbordar de todos os cantos. A Bahia é feminina. A Bahia é linda. Não há povo como este, não há energia boa como esta.

Não sei se conseguirei explicar o que é Caraíva. Só vivendo Caraíva. Aposto o que quiserem que qualquer pessoa que tenha estado aqui, vos vai dizer o mesmo. Há uma coisa aqui chamada a Depressão Pós-Caraíva (DPC). Ainda não fui embora e já a sinto. Mas como tenho aprendido a desapegar-me das coisas, dos lugares e das pessoas, porque esta viagem está cheia de paixões e despedidas, talvez não sofra tanto a D.P.C.

Caraíva é uma aldeia perdida que nasceu de aldeias indígenas. Convivem juntos turistas e nativos, índios, cães, mosquitos e muitos muitos lagartos. E juro que em todos é possível ver um sorriso, se olharmos bem de perto. Caraíva é um banco de areia onde de um lado está o rio, do outro o mar. E rodeada de praias, lagoas, natureza, de mata, palmeiras e vegetação a perder de vista. Não é à toa que a energia é tão forte aqui.

Cheguei há duas semanas e vim para trabalhar. Dizem que a Bahia te aceita ou te expulsa. Tal como acontecia em Florianópolis, onde fui para ficar uns dias e foi impossível sair tão cedo. Passaram duas semanas e várias tentativas de ir embora (de malas feitas e à espera de taxi, mas acontecia sempre qualquer coisa que me fazia voltar para trás de mochila para voltar a sair no dia seguinte e acontecer o mesmo.)

Há lugares assim. Caraíva é um deles.

Ainda que o hostel onde queria vir trabalhar pedisse voluntários que ficassem no mínimo um mês, candidatei-me na mesma sabendo que só tinha 2 semanas (o visto no Brasil começa me a arder no passaporte). Fui aceite e vim! Depois de 18 horas de autocarro, um ferry, uma van e dois dias em Arraial d’Ajuda, onde também só ia passar uma noite mas acabei por prolongar, porque mais uma vez, foi impossível deixar, levei mais 3h num autocarro muito rústico e mais uma travessia de barquinho para chegar no Paraíso.

Sorria, você está em Caraíva. E não é que é verdade?

Despacho o trabalho (não se pode chamar bem de trabalho porque com uma vista destas, fazer camas, lavar casas de banho, louça e chão não custa nada), e tenho a tarde livre para receber o que Caraíva tem para dar.

Sei que já falei muito e ainda não consegui explicar o que é este lugar. Não há carros. Há cavalos. Os táxis são carroças.

Não há estradas. Há areia. Bom para o glúteo e para o gémeo.

Não há funk nem samba. O forró é rei. Todos os días há forró em porta sim porta não, e é para dançar até de manhã. A mulher só tem de saber seguir o homem e garanto-vos, eu, uma anti-follower e uma control-freak, aqui sou feliz a seguir quem guia.

Caraíva é um exercício constante à paciência e tolerância de qualquer um. Neste lugar não há horas, nem pressa nem queixas. Cada um faz as coisas no seu tempo e não adianta reclamar nem ter pressa. Ou aceitas, ou Caraíva te expulsa. A vida aqui começa tarde e acaba tarde. (Menos as minhas manhãs de limpeza; essas começam cedo e terminam cedo também).

Tem Caraíva para todos. Caraíva é cara, não é à toa o nome. Barataíva não combina. É cara, e há para todos os gostos. Há pousadas luxuosas de frente para o mar e restaurantes de marisco fresco de fazer chorar a carteira. E desconfio que daqui a uns anos ese sitio especial seja totalmente dominado pela ambição e capitalistas e estará a abarrotar de turistas. Desde que a energia e o amor, e o respeito pelos nativos e pela terra se mantenha, tudo bem. A minha Caraíva é diferente. Troco trabalho por alojamento, senão era difícil manter-me aqui tanto tempo. Há 15 dias que não tomo banho de água doce. Como faz falta isso! Lavar os dentes com água engarrafada e tomar banho de boca fechada lembra me os meus tempos no Quénia. Mas tudo o resto compensa!

Para falar nas mulheres, começo pela Duca. A Duca veio viver para Caraíva quando tinha 40 anos. Agora tem 85. Na altura não havia tanto forró como há hoje e ela caminhava 36km pela praia para chegar ao bar de forró maia próximo e bailar toda a noite. Hoje basta lhe sair de casa e dançar. E se ela dança. Uma mulher com 85 anos que se mexe com mais agilidade que um acrobata do Cirque de Soleil. Umas perninhas de gafanhoto que fazem o forró parecer um exercício de levitação.

A Duca abre as portas da sua casa para servir pequenos almoços e almoços vegetarianos todos os dias, que ela própria cozinha. Delicioso, posso-vos garantir. Perguntei-lhe como se aguentava para bailar forró todos os dias até às tantas e ainda cozinhar isso tudo e pintar. A Duca começou a pintar para passar o tempo. As suas pinturas ficaram tão famosas que hoje em dia são o ícone de Caraíva, tal como ela é.

(Pintei um cartaz para a festa da Lua Cheia e tentei reproduzir as casinhas dela, mas sem sucesso).

Resposta à minha pergunta; a Duca disse-me que dormia à tarde, ia para o forró, voltava, preparava o pequeno almoço, fazia duas horas de yoga, descansava e pintava, preparava o almoço e dormia para carregar energia para o forro da noite novamente. Talvez este seja o segredo para se chegar longe com a energia, agilidade e cabeça da Duca. Comer bem, fazer exercício, dançar muito e ser feliz! Num sítio destes, é ainda mais fácil.

Mas a Duca não é só isto, é o rosto de todas as mulheres de Caraíva. Organizações de mulheres. Nativas indígenas e locais. Pelos direitos das mulheres nesta aldeia. A Duca está à frente. Caraíva é mulher. Não sei se já tinha dito.

Conheci mais de 10 mulheres que passaram pelo hostel. Todas a viajar sozinhas. Brasileiras e não só. Cada uma com uma história e motivação diferente. Visão diferente do mundo. Crenças diferentes e backgrounds diferentes. Mas todas muito cientes do que é ser mulher e do poder que temos. Todas fortes, independentes e muito seguras. Quando conheces mulheres assim a viajar sozinha e com tantos pensamentos a convergir com o teu, e num lugar como este, é uma viagem. Cozinhámos juntas. Viajámos juntas. Dançámos juntas. E rimos muito juntas.

Amanhã é dia de deixar Caraíva e partir para outro lugar. Vou com mais força e mais segura do que sou e do que quero. Mais segura que o mundo está a avançar e são as mulheres que o fazem avançar mais rápido.

Eu vou. Mas hei de voltar. Porque Caraíva me aceitou. E eu deixei.

E se deixei.

Caraíva, meu amor. Eu volto.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *