A lata que o Brasil tem – parte 2

Ora, enquanto vocês ficaram em Matosinhos (no post anterior), eu já saí do Rio de Janeiro, pela quinta vez e já levo no lombo 12horas sentada no mesmo assento de autocarro, a caminho da Bahia. Porto Seguro. Caraíva. Ainda me faltam mais 8h e já não tenho posição para as pernas, para o rabo, costas… mas quem aguentou uma viagem de autocarro de 30h como eu e cheia de peripécias aguenta esta.

Há 2 meses, quando comecei a subir o Brasil, apanhei um ónibus que levaria 23h (de Foz de Iguaçú até ao Rio de Janeiro), mas como sou uma coleccionadora de histórias e o universo deve gostar de me dar mais uma quantas para a coleção, fui justamente apanhar um autocarro cheio de smugglers, de mulas.

As mulas são as pessoas que carregam mercadoria ilegal seja de que forma for, e trabalham para uma rede organizada. Pronto, claro que eu tinha de apanhar esse autocarro. Felizmente correu tudo bem e estou aqui para contar a história mas foram momentos de pânico naquelas 30 horas de viagem.

A Ciudad de Lest, no Paraguay é um destino paradisíaco para quem gosta de compras sem taxas. E estas mulas vinham todas de lá carregadinhas com mercadoria que legalmente só podiam transportar até ao valor de 300 dólares, para evitar contrabando de grande escala, mas traziam muito muito mais que isso. Electrodomésticos, electrónica, maquilhagem, eu nem sei bem o quê porque estava tudo embalado com sacos pretos para poderem camuflar tudo no mato a meio da noite caso à polícia nos parasse. Fui compondo a história com bocados que conseguia apanhar entre os gritos, os choros, as rezas e as ameaças dentro do autocarro. O motorista estava comprado, mal chego e me sento o líder do grupo dos traficantes levanta-se e diz:

-“Vamo todo o mundo entregando 20 reais na minha mão e sem choro”.

Eu que tinha tomado um drunfo natural para dormir, acordo meia zabimba a tentar apanhar o que se estava a passar. Se era um assalto se era peditório. E perguntei à moça ao meu lado que já tinha uma nota estendida.

-“Fica quieta que isso não é com você não. Você não tem mercadoria, tem?”

E eu a tentar decifrar o que era mercadoria. Bom, tinha duas mochilitas com roupa, uns ténis, livros e produtos de higiene. Acho que não contava como mercadoria. Fiquei quieta, como ela disse. Enquanto o calmante fazia efeito, acordo a meio da noite com gritos e choros.

Resumo o que se passou. Ora bem, estes traficantes têm um grupo do whassap (o whassap aqui no Brasil é mais popular que Deus) e nesse grupo há informadores que têm a tarefa de saber se ao longo da viagem há polícias nos postos de vigia a fazer revistas aos autocarros. Por norma, os polícias estão comprados e os motoristas dos ónibus também. (#corrupçãoélei) E os informadores estavam a passar pelo grupo do whassap que havia polícias que não estavam comprados e que iam revistar o ónibus. Se isso acontecesse, as mercadorias seriam apreendidas e as mulas seriam multadas. E a minha viagem demorava bem mais que 30h seguramente. Este drama aconteceu mais de 4 vezes.

Enredo:

Mensagem no whassap a informar polícia no posto seguinte. O motorista pára o autocarro (onde quer quer seja, parou no meio da autoestrada, em curvas, no meio do mato, em descampados a meio da noite). As mulas saem. Tiram a mercadoria, escondem-na. E esperam que venha um carro já pronto para os levar de volta para trás e tentam fazer a travessia no dia seguinte esperando que já não haja polícia nos postos. É uma loucura!

A primeira paragem foi falso alarme. Afinal não havia policia no posto. Não fomos mandados parar. Mas o motorista resolveu pedir mais dinheiro do que os 20 reais iniciais. Fizeram se ao todo, ao longo das 30 horas mais 4 vaquinhas. A última colecta chegou aos 100 reais por pessoa. O motorista ainda tentou pedir 500 mas o autocarro rebeliou-se. Aqui os motoristas viajam numa cabine que não comunica com a cabine dos passageiros. Para segurança dele, tranca-se e fica ali protegidinho (canalha!).

O que aconteceu foi que os informadores do grupo também estavam comprados por ladrões que lhes pediram que passassem a informação de que havia revista nos postos para que as mulas saíssem uns kilómetros antes e ao saírem com a mercadoria, seriam assaltados por esses ladrões.

Apercebi me disto tudo e acho que o único motivo para não me ter borrado toda nas cuecas foi o drunfo que me acalmou e me fez sentir que estava no meio de um filme em que eu era só espectadora. A moça que ia sentada ao meu lado fazia 25 anos no dia seguinte e essa era a profissão dela, viajava como Mula com quilos e quilos de maquilhagem que comprava de forma legal, para depois vender também legalmente mas pelo triplo do valor. Mas as leis do brasil não permitem a entrada de tanta mercadoria por pessoa. Ela rezava e chorava e dizia que só queria ir passar o aniversário a casa com o marido e entregar a maquilhagem ao chefe dela. E que fazia estas viagens há anos e já tinha sido apanhada uma vez mas não tinha intenção de parar de as fazer tão cedo porque lhe davam muito dinheiro.

Conclusão da história, chegamos todos bem. Eles cheios de mercadoria que desapareceu num instante assim que chegámos ao Rio. E eu com as minhas duas mochilinhas e menos 2 kilos de tanto que suei nessa noite. E com 7 horas de atraso por tanta paragem e desvio e gritaria e vaquinhas para o motorista. Ainda tentei saber se não era possível fazer queixa mas aconselharam me a não me meter nisso.

-“Não chegou no seu destino como quería? Então fica quieta!”

Tudo para dizer que desta vez, não tomei calmante nenhum para esta viagem, porque afinal de contas são só SÓ 18 horas. E eu fico bem quieta sem calmantes.

Olha eu aqui tão quietinha no meu canto. Sim, a fantasia talibán é a minha proteção contra o ar condicionado, esse demónio maléfico omnipresente aqui no Brasil e que insiste em fazer-me duvidar se não estarei na Sibéria.

Bom, mulas à parte; retomo a conversa do último post sobre os homens. Alguns conseguem ser autênticos cavalos, mulas, burros, tudo. Outros como o Darlan são surpreendentes.

Estava na praia a escrever, no final do dia (ai olha ela a escrever!) e sinto o cheiro da minha perdição: queijo coalho na brasa. Levanto a mão e peço um depois de negociar um bocadinho o preço, que no final acabei por pagar ainda mais do que tinha oferecido só pela boa conversa que tivemos durante uma hora.

O Darlan acabou de fazer 20 anos, vive numa favela no Rio e vende queijo na praia há 5 anos. Diz que antes chegava a vender 200 por dia e agora se vê à rasca para chegar aos 20.

Deixou de estudar e diz que agora está a juntar dinheiro para comprar uma casa e arrendar aos turistas. Diz que já passou a fase de gastar dinheiro e andar sempre em festas. Que agora quer pensar no futuro. (Se aos 20 já passou essa fase, nem imagino com que idade começou).

Falámos sobre ter filhos e sobre essa responsabilidade. Ambos concordámos que se existiam demasiadas crianças no mundo a precisar de pais, para quê trazer mais. E logo a este mundo! Contou-me que amigos e primos dele têm filhos porque acham que é uma brincadeira e que as crianças acabam por passar o dia sozinhas na favela, nem comem, nem aprendem porque os pais acabam por se separar, e ninguém quer saber deles. Ele diz que ainda hoje com o dinheiro dos queijos compra fraldas para o filho da prima dele que passa os dias no instagram à espera que o namorado traga dinheiro para casa. Namorado esse que também vende coisas na praia. Namorado esse que já não põe os pés em casa há 3 semanas.

-“Para ter filho assim, prefiro não ter. Não tenho paciência. Nem grana. É preciso muita grana para criar um filho. E eu não quero bancar filho se não tiver condições. E o que eu não quero mesmo é ficar bancando mulher, viu?”

Disse me que queria sair da comunidade (favela) porque onde ele vive há muita inveja, e que basta alguém ter inveja do sucesso do outro para levar um tiro.

-“E quer saber? Aqui, quem morreu, f*deu! Ninguém liga para morto, não. E eu não quero acabar morto. Por isso quero ir embora já.”

Conversamos sobre várias coisas e ele não percebia porque é que eu andava a viajar, a “gastar grana para nada”. Tentei-lhe explicar as minhas razões, mas sem muito esforço, porque caminhamos em estradas paralelas e realidades muito diferentes. As vezes passamos a vida a poupar para uma reforma e nem lá chegamos. No final disse-me que também gostava de fazer isto um dia. Gozar as poupanças dele em novo antes que alguma desgraça acontecesse. Quando tivesse a casa dele arrendada aos turistas, ia pegar na mochila e acordar num sítio novo todos os dias. Disse que já não faltava muito, que andava a poupar há muito tempo.

Despedimo-nos, paguei-lhe o queijo e desejei-lhe boa sorte num abraço. Disse lhe para ter cabeça e cuidado. E ele agarrou no meu dinheiro e foi beber uma caipirinha.

-“Então Darlan, e as tuas poupanças?”

-“Aí dona, é só hoje. É que eu gostei muito de te conhecer.”

E foi cada um para seu lado. Pensei que se este miúdo se perdesse, seria um desperdício.

Mas voltando ao tema homens, porque como pudemos ver nem todos os que se cruzaram comigo são abusados; uns metros mais à frente, no calçadão, neste mesmo dia, um rapaz que passeava o cão ao meu lado, pede me uma indicação. Eu, dentro do meu conhecimento de carioca, que o Rio num mês me permitiu, expliquei-lhe onde era. E ele diz com toda a lata: “Eu sei muito bem onde é essa praça, mas achei você bonita e quis falar.”

Errrr…. Ok. Directos, hein?

Ri-me e segui caminho e ele continua:

-“Quer ir sair logo?”

-“Não, obrigada.”

-“E agora quer tomar alguma coisa?”

-“Também não, obrigada.”

-“Você me passa o seu contacto.”

-“Não. Boa tarde, bom passeio.”

Não é não. Foi a campanha criada no Carnaval contra o assédio. E que pelos vistos muitos ainda não entendem. Não é NÃO. #nãoénão

Como já me aconteceu, precisar de apresentar uma tese sobre o porquê de não querer dar o meu número, ou um beijo, ou aceitar uma bebida de alguém, ou simplesmente conversar.

“Mas porquê? Tem namorado? É lésbica? Me acha feio? Cheiro mal? Não gostou de mim? Tá com pressa?”

OPÁ, não é NÃOOOOO!!! #deslarguemm

Mas nem sempre no calçadão acontecem cantadas destas para rir. Também já homens me fizeram chorar. Homens de metro e meio. Na verdade, de um metro.

Um dia fui passear ao final da tarde e sentei-me com um livro a ver uns miúdos jogar futebol na areia. Deviam ter entre 7 a 10 anos. Havia um muito pequenino que não devia ter mais de 6 e me dava pela cintura (sim, eu sei que não sou muito alta, mas ele era bem baixinho!). E o pequenino vai com a confiança toda, leva a bola, passa o meio campo e quando chega à baliza, falha. E começa num pranto, parecia que o mundo tinha acabado. A chorar sem sair do mesmo sítio de onde tinha falhado o remate. Os colegas de equipa aproximam se todos e uns abraçam-no, outros dão-lhe uma festa na nuca, a confortá-lo e como quem diz “Deixa lá, miúdo!”. Mas há um que fica, fica e não larga o abraço por uns bons segundos. Dá-lhe um beijinho na bochecha e afasta-se uns metros. Como vê que o choro não cessa, volta, agarra-lhe nos braços, olha-o de frente e diz:

-“Pare de chorar, não tem mal”

O resto da equipa continua espalhado pelo campo à espera que o jogo retome e o pequenino não pára de chorar. O amigo vai buscar a bola, coloca a bola à frente dele e diz:

-“Vamo, chuta moleque!”

O pequenino sem muita convicção e ainda a soluçar dá um chuto na bola e a baliza aberta sem guarda-redes deixa a bola entrar e com um grito do amigo: “GOOOOL!!”, todos os companheiros vêm a correr e pegam no pequenino ao colo a festejar. O professor (era uma escolinha de futebol), apita e saem todos de campo, o pequenino já sem lágrimas e o amigo que tem direito a uma palmadinha nas costas do professor que viu tudo ao longe sem intervir, como eu vi. E eu, lavada em lágrimas a ver um jogo de bola de miúdos de 7 anos, às 20h da noite sentada na areia. Pronto.

Se há dias em que o Brasil me faz perder a fé nos homens, há outras noites em que ganho mais fé nas crianças. Que um dia serão homens e que espero que saibam entender que NÃO é NÃO.

Prá frente, Brasil!

PS- vou passar os próximos dias, em Caraíva (pesquisem que vão ficar de boca aberta!) a trabalhar num hostel. Desta vez espero que não seja o mesmo trabalho artístico como das outras vezes que acaba sempre em limpeza. Mas se for, já tenho curso.

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