A lata que o Brasil tem

Que o Brasil tem muitos bairros de lata, toda a gente sabe.

Que há sempre moços e moças a recolher latas do chão, da praia e dos caixotes do lixo para vender para reciclagem, quem cá veio já viu e sabe.

Que os brasileiros têm muita lata, estamos todos cansados de saber.

Mas que há homens brasileiros que confundem lata com abuso, nem eles sabem.

O assunto de hoje é:

Histórias que me aconteceram com homens com muita lata e eu com pouca paciência; e Histórias de homens de palmo e meio mais homens que todos os outros.

Se é pelo clima, pelo calor da língua (linguagem, entenda-se), pela ginga da dança, pelos ritmos latinos, pelas caipirinhas ou simplesmente lhes está no sangue, não sei mas que os brasileiros são namoradeiros, flirteiros, pegadores, engatatões, chamuyeros, playboys, ou muito latosos; isso é um facto. E tem uma certa graça. À distância. (Atenção activistas e juizes das redes sociais que isto é apenas a opinião de alguém que anda aqui há dois meses e é o exemplar (im)perfeito da portuguesinha púdica).

Já tive esta discussão com várias pessoas. E muitas vezes se transformou numa discussão mais séria. A verdade é que nunca me senti tão objectificada como me sinto aqui no Brasil. Certamente que há mulheres que gostam de ser seduzidas assim, senão eles não continuavam com este tipo de abordagem. Pelos vistos resulta. Em conversa com um amigo que já tem uma costela brasileira, ele diz-me que aqui a cultura da sedução vai a outro nível, e que esse jogo é bem mais directo. Não se demora tanto tempo no meio para se chegar ao fim. É por isso que muitos europeus e gringos deliram quando chegam ao Brasil (para já não posso falar de toda a América Latina, que ainda nem a meio vou). Deliram porque suam menos nas conquistam, suam mais noutro lado. Que bom para os dois, se ambos os lados estiverem no mesmo comprimento de onda. Não há nada que me divirta mais que sentar-me num canto a observar um bom engate e que no final seja bem sucedido. Mas que ninguém vá ao engano, que ambos saibam ao que vão e que quando ele diz nos primeiros 3 segundos, com um bafo ligeiramente alcoolizado “Você é a gata mais gata que eu já vi, estou apaixonado, quer casar comigo?”; que ela ou ele (bom, não falo dos engates entre dois homens que esses todos sabemos que não têm tanta frescura como quando mete uma mulher, seja ela uma ou duas); que ninguém acredita que aquilo é verdade e que vai sair com um anel no dedo nessa noite, toda a gente sabe. O mais provável é sair com outras coisas (que pode ser uma outra conjugação das palavras que usei na frase anterior). …tempo para balanço. Podemos seguir?

Bom…

Nisto tudo só me chateia uma coisa, aqueles que não sabem aceitar um não. E aí passa da cantada, do flirt ao abuso, ao assédio. E quando são chamados à atenção, viram o jogo ao contrário e te lançam um “também não és assim tão boa”. Que só consigo equiparar à atitude que tinha quando andava na primária e não me escolhiam para nenhuma equipa de futebol (ou qualquer desporto, sejamos sinceros!) e eu mandava um “Óóólha (à verdadeira maneira alcobacense), eu também nem queria jogar!” Felizmente não tive nenhum episódio desagradável, ou melhor, nenhum com o qual não soubesse lidar; porque considero que apesar de metro e meio, os desarmo com palavras.

Um deles veio-me com a história do ai-és-tão-linda-és-a-mulher-da-minha-vida, que só por aí já se pode perceber que os poucos neurónios que tinha tiraram licença sem vencimento. Eu perguntei-lhe se alguma vez tinha conseguido alguma coisa com aquela frase. Ele olha para mim muito espantado e depois de me perguntar de onde sou, diz que sim, que geralmente consegue. Eu digo-lhe que vá dar uma volta e que não volte a menos que tenha algo mais interessante a dizer. Ui, um desafio. (Nesta altura deve ter sentido falta dos neurónios que dispensou). Passado meia hora volta mais tímido, menos cagão, e pergunta:

-“Você dança muito bem. Onde é que aprendeu?”

Para vos contextualizar, isto foi num bar ao ar livre (no Palaphitas na Gávea, para quem conhece), numa noite de temporal, chovia torrencialmente, estávamos todos com água pelos tornozelos e era uma festa funk. Ora numa festa funk cheia de brasileiras com bunda com vida própria e uns passos de invejar, se alguém se destaca pela dança, não vai ser a portuguesinha púdica com água pelos tornozelos e saia abaixo do joelho. Só pelo esforço, dei lhe mais uma oportunidade e disse-lhe que tentasse mais uma vez, que ele conseguia fazer melhor. Estava a ter graça. Para os dois. Mas mais para mim acho. A terceira abordagem matou-me. Não sei se estão prontos para isto.

-“Oi de novo. Você sabe que a minha mãe tem um primo em Matósinhos?”

😳

(…to be continued!)

Deu-me o sono. E para não ficar muito grande. Hoje vai assim e amanhã termino num post round 2.

É que ainda tenho de contar a história do Darlan (da foto), e dos meninos que a jogar à bola me fizeram chorar, e do Alex; o verdadeiro homem com lata, e de outras cantadas de rir, e outras que acabaram a chorar.

-“olha esta agora deu-lhe para o suspense no blog”

É, acabei de inventar o novo género: BLOGOSPENSE. Adopto.

Inté.

Diana (Bianca também serve)

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