Day 120 – Eu também queria, mas…

Sim, resolvi voltar ao blog, que deixei há 3 meses porque o meu computador se avariou. Na verdade isso foi só mais uma desculpa para não assumir que esta vida de blogger não funciona muito bem para mim. Consome muito tempo. Tempo que eu queria aproveitar para outras coisas. E além disso, quando alguma coisa se torna obrigação, perde a graça. Então deixei-o.

Mas tenho tantas histórias que sinto que as tenho de partilhar. Tenho muita gente que me envia mensagens a perguntar como faço para viajar assim tanto tempo, que mochila tenho, o que levo na mala, quanto dinheiro gasto, como me vou mantendo, como é viajar sozinha, etc etc.

Mas o que mais me dizem é:

-“eu também queria fazer isso que estás a fazer, mas não tenho guita, ou não tenho coragem de largar a minha vida, o meu emprego, etc…”

Bom, quanto ao emprego, não vos posso dizer mais nada a não ser, não tenham medo de arriscar e perseguir um sonho, porque quando voltarem a vida que deixaram vai estar igual e as pessoas serão as mesmas, o que vai mudar, são vocês mesmos. E talvez até percebam que afinal nem gostavam assim tanto do vosso emprego, e que está na hora de procurar outra coisa.

Quanto ao dinheiro. Ora bem, é certo que poupei muitos anos, nem eu sabia bem para quê, talvez para uma casa, para filhos, para assegurar um futuro. Mas chegou uma altura que resolvi pensar antes em mim e investir essas poupanças em algo que me tornasse ainda mais rica. Não em ações, nem na banca, nem dívida pública, nem tesouro; em viagens!

Tenho uma média de 1000€ por mês, o que me dá cerca de 30€/dia (que deve incluir alojamento e alimentação). Claro que há países em que este orçamento foi ultrapassado, como a Argentina e o Uruguay que são caríssimos. Mas depois há países que compensam, como a Bolívia e a Colômbia.

Há que deixar bem claro que estar de férias e viajar não é a mesma coisa. Ser viajante por longos períodos não significa comer fora todos os dias, fazer todas as excursões e visitar todos os pontos turísticos como quem faz férias por duas semanas. Esses sim, podem dar-se ao luxo de investir em qualidade de vida e fazer tudo isso porque possivelmente serão as únicas férias do ano que terão para desfrutar à grande e à francesa. (Se bem que esta expressão não tem sido comprovada pelos franceses que conheço, que são uns sovinas do pior!).

Tenho formas de controlar os meus gastos diários. Há uma aplicação chamada TrabeePocket que ajuda a controlar os gastos. Tenho pastas para cada país, na respectiva moeda, e todos os dias actualizo os gastos. Se num dia gasto mais, no dia seguinte, compenso e gasto menos.

Desta forma é mais fácil ir mantendo o rasto do dinheiro que é tão fácil de desaparecer, ainda para mais quando se mexe com outra moeda desconhecida. Tenho sempre a sensação que ando a brincar ao monopólio. Cheia de guita! Mas afinal não. 100 reais pareciam me imenso no início. Afinal são apenas 25€ e gastam se num instante.

A aplicação também te permite identificar os gastos e dizer se estas acima ou abaixo do orçamento que definiste no início. Aconselho.

Também há uma outra chamada GroupXpense para despesas de grupos. Por vezes quando te juntas a alguém e as despesas são divididas, ou se faz uma vaquinha de dinheiro comunitário, é uma chatice saber quem pagou o quê e quem deve o quê a quem. Esta aplicação é um anjo caído do céu. Ajuda a dividir tudo e vai actualizando as dívidas que tens para com o grupo. E funciona em rede, assim todos recebem na aplicação, as actualizações de gastos em tempo real. Também aconselho esta.

Além de ter de ser bastante regrada com o meu dinheiro e deixar de fora algumas coisas que queria fazer, e que vejo outros viajantes a fazer, mas que tenho de pesar prós e contras, também tenho outra estratégia.

O conceito de trocar dormida e por vezes comida, por trabalho, é o ideal para quem viaja por largos meses. A aplicação Worldpackers ou Workaway permitem que te inscrevas (pagas uma taxa única de 50 USD) e tenhas acesso a várias oportunidades de trabalho em troca de alojamento. Criei um perfil no Worldpackers onde explico quem sou, o que faço, que línguas falo e que aptidões tenho. Depois é só escolher a cidade e procurar que tipo de trabalho queres fazer em troca de dormida. Quase todos os hostels aceitam voluntários neste conceito. O tempo mínimo de permanência e as condições oferecidas variam.

A minha primeira experiência de trabalho em troca de comida/dormida, foi no Uruguay (país caro comó raio). Trabalhei um mês e meio num hostel em Punta del Diablo, uma vila de pescadores junto à praia com muito turismo. Fazia 4h por dia na recepção, limpeza de casas de banho, bartender, e ajudava na cozinha quando era preciso. Foi ideal, porque 4h passam a voar e além do mais pude conhecer muita gente. Tinha pequeno almoço, cama e jantar incluídos. O staff era incrível e o hostel (mar de fondo hostel) tinha óptimas condições. Apaixonei-me. Tive de partir porque havia muito mais para conhecer. Com o dinheiro que poupei aí, já pude ter mais algum para fazer coisas que queria como o voo de helicóptero pelas cataratas do Iguazú e o voo de Asadelta no Brasil. Coisas caras que de outra forma seriam impossível com o meu orçamento.

A minha segunda experiência de voluntariado foi através do Worldpackers e não correr tão bem. Dizer “tão bem” é um eufemismo! Foi uma loucura. O anúncio pedia alguém para criar projectos artísticos numa guesthouse/pousada que desenvolve trabalho artístico manual (murais de mosaicos, produção de artesanato, etc. Achei que era a minha cara. E tudo isso em troca de dormida e passeios pela zona. Era em Paraty, no estado do Rio de Janeiro. Uma cidade linda mas que ficou sem grande graça por causa da experiência que tive.

Antes de chegar já tinha um feeling que algo não ia correr bem. Não me perguntem porquê mas sentia que a mulher não era bem a minha onda. Eu bem digo que devo confiar mais nos meus instintos. Não só não era a minha onda como era completamente LOUCA!!! O Worldpackers também tem uma funcionalidade em que te permite falar com outros voluntários que já estiveram naquela “casa” e saber as suas experiências. Foi o que eu fiz. Falei com uma portuguesa que tinha estado na casa e que me disse que a experiencia dela tinha sido muito negativa e que tinha vindo embora poucas horas depois de chegar. Ups!

Há muita gente que se aproveita do Worldpackers e dos voluntários viajantes para procurar empregados gratuitos. Foi o que aconteceu. Nem era uma pousada, era a casa da louca onde ela vivia sozinha (e de vez em quando alugava em airbnb – o que ela achava que lhe dava o direito de qualificar a casa como “guesthouse”. Como no brasil esse não é um conceito tão conhecido, parece sempre atractivo). E mal cheguei, ela estendeu-me a mão para me cumprimentar, o que achei logo estranho visto que os brasileiros são tão calorosos nos cumprimentos. Marcou logo uma distância. E perguntou me se tinha problemas em limpar. Porque tinha de limpar a casa todos os dias, estender e apanhar a roupa, lavar a louça, limpar o terraço e jardim, fazer jardinagem, limpar o entulho do jardim, fazer uma obras de restauro na casa de banho… enfim, a lista continuava. Que bela recepção; pensei eu.

Disse-lhe que o anúncio pedia alguém para trabalho artístico. Ao que parece aqui as limpezas no brasil são consideradas uma arte (como a minha segunda experiência, que logo vos conto, também confirma).

-“Aí, então, deixa eu te falar...” – quando a conversa começa assim, já sabemos que vem aí uma desculpa. E a desculpa era que como eu vinha tão pouco tempo (1 semana; que era o combinado), não havia tempo suficiente para desenvolver um trabalho artístico. Ainda assim insisti e o que tive como resposta foi que podia pintar paredes. Bom…

Não tenho qualquer problema em limpar, se a atitude de quem pede for humilde. Mas era o oposto. No primeiro dia, lá varri o chão e lhe estendi a roupa. Ainda fiz trabalho de jardinagem (que não entendo nada!!) mas depois começou a ser demais. Uma atitude péssima da louca deixava-me sem vontade de fazer nada. Lá lhe mostrei que podia fazer umas pinturas para melhorar a casa e andei à cata de materiais, pelo lixo e pelos vizinhos para pintar uns sinais pela “casa de hóspedes” dela.

Mas para vos provar como ela era louca varrida, conto-vos só um dos mil episódios que tenho com ela. Um dia acorda-me de manhã (partilhávamos o mesmo quarto, o que me deixava meia incomodada porque ela tinha uma energia mesmo muito pesada); acorda-me e passa-se o seguinte diálogo:

Bianca, (sim, ela nem o meu nome sabia!) você come banana?

-Errrr… Como!

-Aí, então, deixa eu te falar… (cá vem outra vez!); eu tenho um problema com banana. Eu ODEIO banana!!!

Eu ri-me, claro.

-Tem graça, né? Pois é, eu não suporto banana, então se você quiser comer banana come fora de casa, tá? Não bota na geladeira que só de ver eu agonio.

Valerá a pena discutir com um louco? O Erasmo de Roterdão, no livro “O Elogio da Loucura”, dá mil e uma razões para percebermos que não. E eu não contesto um ensaio do século XVI.

Enfim, toda a experiência serviu como terapia e como um retiro de solidão (porque a parte boa é que eu nunca a via, mas tenho mensagens de voz que ela me enviava todos os dias com as tarefas que tinha de desempenhar, que são de chorar a rir. Passou de chamar-me Bianca, para Flor. Mas quando queria pedir alguma coisa que já sabia que não ia fazer, já me chamava pelo meu nome. Que para quem não sabe, não é nem um nem outro; prazer, Diana!)

O Worldpackers tal como todos os sites de serviços permite fazer uma review/crítica/comentário da experiência do voluntário. É claro que a minha crítica não foi pêr doce. Se outros voluntários que chegaram e se foram embora no mesmo dia (e não foram poucos, pelo que os vizinhos me contaram) tivessem feito o mesmo, eu já não tinha convivido uma semana com a louca das bananas. Para verem o grau de alienada da louca, no final ainda me envia uma mensagem:

-“Diana (aí sim, já sabia o meu nome!) você tem noção que a crítica que você escreveu é pública e todo o mundo vê?”

… (emoji de olhos esbugalhados e perdido de riso!)

Nada mais a dizer disto.

A minha segunda experiência também é digna de ser narrada. Arraial do Cabo. A capital do mergulho do Brasil, no estado do Rio de Janeiro, é considerado o Caribe Brasileiro. (Mas cheio de turistas!!!)

Até aqui tudo correcto. Só não explicam é que aqui, trabalho de comunicação, social media, fotografia e edição de vídeo também significa fazer limpezas.

Desta vez não me importei porque a família era amorosa e precisava mesmo de uma mãozinha nas limpezas das casas que geria para alugueres. Mais uma semana de limpezas, na favela. Ou como a dona chamava carinhosamente de “o morrinho tranquilinho”.

Tudo bem, enquanto limpava o chão, fazia camas e limpava casas de banho, ia limpando a alma ao som de música brasileira. E o neto dela deixou-me completamente derretida. Tenho vídeos no instagram se quiserem comprovar o grau de fofice deste miúdo. (@diananicolau). Sabia tudo sobre animais marinhos e ficou feliz da vida quando lhe dei este colar com uma tartaruga que por sua vez me foi dado no Natal, pelo Jeronimo, meu companheiro de trabalho no primeiro hostel. Viajar também é saber reciclar presentes e passá-los de mão em mão. #desapego

Hoje saio daqui, depois de uma manhã de limpezas. Fiz a minha mala e estou à espera do autocarro que me leve até ao próximo destino: Búzios. Resolvi dar-me umas férias e fico 2 dias sem fazer “trabalho artístico” e vou curtir Búzios, já que poupei na dormida por 2 semanas, já pude fazer mergulho e ir jantar uma massa bem gostosa ontem com um copinho de vinho a acompanhar.

Poupar num lado e gastar no outro. É assim que faço.

Então, para quem me pergunta como me mantenho e como tenho dinheiro para tudo.

Aí, então, deixa eu te falar… É ASSIM. A fazer trabalho artístico.

Fui.

Diana, ou Bianca, ou Flor, ou faxineira Cleide.

PS-ah, e ainda ganhei descontos em comidas e transfers de barco quando percebem que não sou só viajante, que também trabalho. Assim é o brasil, uma mão lava a outra.

3 thoughts on “Day 120 – Eu também queria, mas…

  1. Adorei a maluca das bananas😂😂
    Continua a escrever eu amooo ler as tuas aventuras😂😂❤️
    Adoro te❤️

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