Day 4 e 5 – Che Bolu! |Buenos Aires, Argentina|

Day 4 – Che Bolu!

Não te dizem, mas viajar sozinho pode ser bastante solitário, e cansativo. Não me queixo, mas com tanto ainda em Portugal, a minha cabeça não acompanhou o meu corpo, e ainda está perdida numa escala qualquer. Pode ser que chegue.

Voltei à Boca. Argentina é muy lindo, mas muy caro. Vou ter de começar a pensar numa estratégia para poupar dinheiro. Viajo com um microfone para continuar a pôr esta voz a render, mas vou ter de ser mais prática. Talvez fazer work exchange. Trabalhar em troca de dormida e comida. Num hostel, claro. Não danço tango, senão até me podia salir bien.

As coincidências não acabam. Sentei-me numa mesa no bairro La Boca, ao lado de um grupo de rapazes, trocámos umas palavras e… surpresa das surpresas, ouço “Diana!!” com um sotaque muito português, e encontro o Diogo. Que conheço de Lisboa. Ele estava com esse grupo. Se me sentasse no café do lado, provavelmente não o teria visto.

Tchin, tchin às coincidências!

A Tess, é uma francesa, muito pouco francesa, 7 anos mais nova que eu, jornalista, super energética, que desde muito nova viaja sozinha. Tem muita muita energia e os sonhos todos que eu tinha com essa idade (que coisa tão velha para se dizer!). Decidimos ir juntas para o Uruguay para a semana. Tchin tchin a isso. (Depois sigo sozinha, que vim cá para isso.)

Cores e mais cores, e música e dança. E pátios escondidos. Não me canso disso. La Boca, é um porto, o primeiro construído em Buenos Aires, e é uma espécie de baía que se junta ao grande rio Argentino, Rio Plata, que segue até ao Uruguay. Chamam-lhe boca por isso.

Os bonecos na varanda, os 3 grandes ícones argentinos. Maradona. Evita Péron e Carlos Gardel.

Por falar em Evita, lá atrás está a Casa Rosada, de onde fez o icónico discurso. Don’t cry for me Argentina. Madonna don’t cry for house in Lisbon.

Olha para mim aqui tão distraída e bem posicionada nestas escadas

 

Há expressões tão típicas deste continente que nos primeiros dias, quando as ouvi, não percebia nada, mas tirava pelo contexto.

(ups, apaguei mais de 500 palavras sem querer. Esta net é tão manhosa que demoro 4h para conseguir concluir qualquer tarefa na net. Dizem que é assim por toda a Argentina. E isto é a Europa da América do Sul, nem quero imaginar como será nos restantes países!)

 

Bem, resumindo.

Um cumprimento usual que a mi me gusta muchissimo, é o ‘Che!’ (ou ‘Che Bolu!’), e a despedida con ‘Dale’. A viajar conhecem-se pessoas a cada esquina, e o Alfredo explicou-me que ‘Bolu’ é uma abreviatura para ‘Boludo’, que segundo ele significa babaca (adorei que me tivesse traduzido para brasileiro), ou tonto, eu cá entendo como chico-esperto à boa moda tuga. Antigamente usava-se como um insulto, hoje os adolescentes adoptaram essa expressão para se cumprimentarem uns aos outros. Bolu para cá, e Boludo para lá.

‘Calambache’ é outra expressão que adoro. Aparentemente pelo que já me disseram pode significar: confusão, sujo, pessoa com mau gosto a vestir-se, quarto desarrumado, ou um mau penteado. Bom, let’s just say ‘Calambache’ is not good. Eu adoro. Ultimamente tenho-me sentido bastante calambachada.

 

O Alfredo, faz estas pinturas à mão há 40 anos, e estas placas podem encontrar-se em todo o lado, são tipicamente argentinas, mas nem em todo o lado são originais. Esta sim, original, pintada por ele.

Adoro como abreviam as palavras, os falantes de língua espanhola, ou preguiçosos ou manhosos ou só forretas nas palavras, dizem ‘porfa’ em vez de ‘por favor’, e ‘fin-de’ em vez de ‘fin de semana’. O metro cá chamam-lhe ‘subte’ para ‘subterrâneo’.

É que aqui há muita coisa para fazer; esta cidade não dorme; ora vão lá agora estar a perder tempo a dizer mais uma ou duas letras, quando podem ir bailar tango, ou comer uma caña y unas tapas (no caso dos espanhóis). Por falar neles, são uma praga aqui. Não no mau sentido, já conheci uns quantos, mas são imensos. Em contrapartida portugueses, nenhuns.

Ontem fui a uma feira de velharias à procura de um livro em segunda mão. Gosto de comprar livros nas cidades que visito, na língua local (quando fui ao Japão, comprei 7 e li tudo numa semana).

Just kiddin’. Nunca fui ao Japão.

Bom, e comprei um, que mais uma vez foi lá metido pela Margarida Rebelo Pinto, para me provar que não há coincidências. Chama-se “Sobre el Amor”, do Carl G. Jung, um médico psicanalista alemão. E tem na capa uma pintura do Klimt, um pintor austríaco. O quadro chama-se “The Kiss” de 1907, e o simbolismo do quadro é interessante. Pesquisem, se vos interessar.

E essa imagem era a capa do meu telemóvel que se partiu na véspera de partir de viagem. E encontro-a na feira de velharias. E com este título, e sobre este assunto no qual tenho pensado muito ultimamente. Então comprei-o, e a velhota que mo vendeu, disse que nunca tinha conhecido nenhum português. E que não se notava nada pelo sotaque que era portuguesa. Bom, mas pergunto-me, como é que chegou a essa conclusão se nunca conheceu nenhum. Enfim, livro às costas. Mais um, que a mala já é pouco pesada. Em parte por causa dos gadgets que trouxe, desta vez controlei-me e deixei a câmara de fora. Mas microfone e computador, e powerbanks, e cadeados, e cabos, e adaptadores (que nem funcionam!!), tenho uns bons kilos às costas. Para juntar mais uns à festa, tenho uma tonelada neste guia da Lonely Planet, que recomendo, ‘South America on a shoestring’ (que é como quem diz ‘para os mão-de-vaca’).

 

Todos me perguntam porque forrei o livro. Bom, por duas coisas. Quando se viaja sozinha, especialmente sendo mulher (em alguns países), convém não atrair muitas atenções. E ler no metro, ou num café ou simplesmente andar com um livro que grita “TURISTA” não é lá grande ideia. Essa é a primeira razão: discrição.

A segunda, é porque ao forrar um livro, ele dura mais, claro. Mas na verdade, não tenho problemas em escrever em livros, ou dobrar páginas. Não sou uma puritana dos livros. Acredito que se se têm, é para serem usados, só assim podem contar histórias, com os vincos, e notas, e cantos dobrados. Como as rugas da cara. Portanto, fiquemos com a primeira razão. Mas… tanto cuidado em passar despercebida e só ontem é que me apercebi com que folhas tinha forrado o livro. Já me ri há conta disso. Sem comentários, tirem as vossas conclusões. E lembrem-se que o objectivo de forrar, era NÃO atrair as atenções.

Que inteligente, não?

Bom, para quem nunca ouviu falar do Teatro Colón, então prepare-se porque é de levar com um pano encharcado nas trombas (como diz a Ana Bola).

A visita guiada era caríssima (300 pesos=15€) mas valeu muito a pena. Meteram-me num grupo de adolescentes que como seria de esperar, não queriam saber do teatro para nada, e paravam em cada espelho para selfies. Good for me, porque pude ter a guia quase só para mim.

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Este Teatro é o maior da America Latina, e acusticamente, é considerado um dos cinco melhores teatros do mundo. Quando o Pavarotti cá veio, perguntaram-lhe o que ele achava da acústica e ele disse que só tinha um problema, era demasiado perfeita e todos os seus erros se iam notar. Coitadinho do Pavarotti.

O actual Teatro Colón substituiu o teatro original, inaugurado em 1857. O atual teatro foi inaugurado em 25 de março de 1908 com a ópera Aida do Verdi, após 20 anos de obras. (um bocadinho de Wikipedia que a guia era só para mim, mas esta cabeça anda muito cheia). Há salas atrás de salas, o foyer é impressionante. A sala principal tem 3000 lugares e 6 pisos de camarotes. Só o candelabro da sala principal tem 7000 lâmpadas. O teatro está adornado com mármore que veio de itália, frança e portugal. Os azulejos do chão foram colocados um a um, à mão por emigrantes. E os vitrais, todos trazidos de Paris. A Sala Principal está elevada, é preciso subir-se umas escadas para entrar (ao género do Teatro D. Maria II em Lisboa). Aqui diz-se que era porque quando se estava a assistir a um espectáculo devia ter-se o espírito elevado, porque se está mais perto do mundo divino.

Esteve fechado durante quase 10 anos para remodelações, mais recentemente. Alguns números para vos deixar de queixo caído.

-Planeamento de 18 meses

-25 milhões de dólares investidos

-500 trabalhadores

-gastos extras (não orçamentados no início) de + 100 milhões de dólares

-1 500 trabalhadores

-130 arquitectos e engenheiros

-Ao todo 60 000 metros quadrados foram reconstruídos

E um pequeno segredo que a guia contou, (um segredo que por 15€ conta a todos!). Há um acesso ao tecto, e espaço para os músicos e cantores junto ao candelabro, de onde eles cantam e tocam em alguns espectáculos, sem ninguém saber que lá estão. Assim, dá a sensação de que a música vem do céu. 28 metros da plateia ao tecto.

Impressionante, hein?

 

Não tenho andado com muita sorte nos museus. Todos onde tenho ido estão fechados no dia em que apareço. Ora estão fechados, ora para obras, ora não têm todas as exposições disponíveis. E aquelas a que vou têm sido bastante… hum… elucidativas.

Ahhhh, tá bem esgalhada a ideia, tá!

Argentina. Bandeira. Azul. Branco. Amarelo. Yeap. Got it.

Mas nem toda a arte tem sido decepcionante, no Museu da Arte Moderno de Buenos Aires (MALBA), encontrei uma coisa, tão impressionante e original, como assustadora e bizarra.

Construíram uma estrutura de metal numa sala do museu. Largaram lá 7000 aranhas. Mais umas quantas moscas e coisas para elas comerem. E 6 meses depois recolheram as aranhas. Levaram-nas para uma quinta muito bonita, e verdinha, com espaço para elas brincarem. E saiu isto.

O “artista” chama-se Tomás Saraceno. Há vídeos do processo na net, se tiverem curiosidade.

E hoje no CCK, Centro Cultural Kirchner, que tem este candeeiro gigante feito de acrílico laminado, e que devia ser óptimo para as aranhas do outro museu.

Foi no CCK que vi esta exposição de fotografias lindas;

Documentam uma tradição de um povo de uma parte recôndita da Argentina, que durante os 8 dias de Carnaval, se vestem de “Diablos” como tradição antiga. Fez-me lembrar os Caretos transmontanos.

Don’t blame me. Selfie time. Viajar sozinha, é muita selfie.

     

Em contrapartida, andar a bater com o nariz nas portas dos museus, já me fez uma perita na geografia da cidade e nos transportes públicos. Eu que sou tão dependente do Google Maps e do gps para tudo, agora neste país onde não tenho net, e o wifi nunca funciona.

E o melhor de Buenos Aires, são os pequenos momentos que tenho documentado. Como estes.

típico café argentino

Num supermercado chinês, a mãe dormia, e o miúdo esteve a comunicar comigo, e gritava por ‘Papa’. Se calhar queria o pai, ou podia estar a falar espanhol e querer batatas. Não sei, mas apertou-me o coração.

Este amigo do Ecuador tão simpático, que tentou à força toda convencer-me a fazer surf no Ecuador, mesmo depois de lhe dizer que já estive à beira da morte por afogamento e que os desportos aquáticos não são para mim.

Pai e filho, de mão na mão, em hora de ponta no autocarro. Um amor.

Flamenco à desgarrada no meio da rua.

As fotos têm uma qualidade muito profissional como podem ver. Lamento e também odeio que assim seja, mas a net é tão lenta que se as postar com qualidade alta, só ficam disponíveis no Natal. E era capaz de não ser grande ideia.

E agora vou-me que amanhã há outro país à minha espera. E eu não sei nada dele. Mas se tiver tanto como este, para e dar, vou sair a ganhar.

 

Tchin-tchin a quem gosta de ganhar! Dale Boludos!!!

Diana.

 

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4 thoughts on “Day 4 e 5 – Che Bolu! |Buenos Aires, Argentina|

  1. Tou a curtir muito seguir as aventuras, oh Joana Nicolau. Bom texto, fácil de ler e com bons pormenores. Dica de quem também viaja sozinho, saca os mapas offline na aplicação do google maps que depois podes andar com ele na rua mesmo sem net. Baci de Praga.

  2. Estava no mesmo hostel que tu e só agora é que me apercebi de onde te conhecia (acabei por chegar aqui ao teu blog). De pessoa que está a viajar ha 3 meses, 2 deles sozinho, para pessoa que começou agora: esse sentimento de solidão é passageiro, é o chamado desmame. Ao final de duas semanas, já nao pensas nisso. Passei pelo mesmo.
    Uruguai é ainda mais caro, be ready.

      1. Estava, com o meu irmao – agora estamos no America do Sur da Patagonia! Voltamos a BA dia 7 e ficamos ate dia 10, mas vamos ficar num hostel em Palermo (esse nao tinha quartos!). Vamos aproveitar a 5a/6a/Sabado para conhecer a recoleta e palermo, e dar um pezinho de dança! Vais voltar a BA?

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